Nos sete anos que vivi na Argentina foram sempre maiores as delícias (apesar de tudo, e quem está lendo isto sabe do que estou falando). Porém, a vida em outro país pode causar uma tensão ou apreensão constantes, além, lógico, da saudade, essa melancoliazinha brasileira pelo que é nosso: a mandioquinha, o quiabo, a farinha de mandioca, o pão de queijo, o café, o feijãozinho, o requeijão, a pizza de São Paulo, e tantas, tantas outras coisas. Naquele tempo eu deixei de lado não só essas delícias da culinária do Brasil, mas algo muito pior: a minha língua.
Eu não sei onde ela foi parar. Eu falava espanhol dia e noite, estudei Sociologia em espanhol (e não sem esforço) e tive a sorte de aprender o idioma com certa rapidez. Aos poucos fui incorporando as expressões locais, a entonação, entendendo o que estava por trás de ditos populares como o “antes malo conocido que bueno por conocer” ou “hecha la ley, hecha la trampa”, além do “atar con alambre”, “cabecita negra”. Além de decifrar as diferenças entre o “al pedo”, “en pedo”, “de pedo”, “a los pedos”, e por aí vai. Outro problema era o de saber qual palavra era lunfardo, uma espécie de gíria criada no porto desde final do século XIX pela mistura desordenada de imigrantes, e o que era língua culta ou mesmo gíria aceitável. Até isso ser resolvido, falei muito “laburo” para trabalhos acadêmicos e “mina” para moças de família. Em espanhol falamos “consistir de” e “responsabilizarse de“. No “vaso” se coloca água e no “florero” as flores, “mala” é uma pessoa má e as pessoas viajam com “valijas”. Bolso, saco, bolsa, copa, taza… nada disso é o que parece. Fora que em espanhol se diz a nariz, a joelho, o água… e até hoje não entendi, por exemplo, como a palavra “área” pode ser o ou a. Essa língua tem muitos mistérios…
Adquirir uma língua nova e, mais ainda, in loco, demanda um esforço emocional e um investimento grande de atenção, dedicação, sensibilidade. Óbvio que nunca esteve no meu horizonte a possibilidade de usar o espanhol para me virar apenas. Os custos disso não demoraram em chegar. Se por um lado eu devia aprender os localismos, havia certas semelhanças que me permitiam uma boa mobilidade mas que, aos poucos, iam deturpando meu idioma original.
Um dos maiores problemas de falar línguas tão parecidas é justamente este: a semelhança! Aos poucos fui esquecendo o “compartilhar” e usando o “compartir”, comecei a falar “chegar a” em vez de “chegar em” que, embora seja a regência correta, soa estranho em português. Aos poucos fui confundindo não só as regências, mas também as colocações pronominais. O português ficou curto porque não consegui dizer ele me deu o pacote, substituindo o pacote por um pronome. É necessário repetir… Numa conversa simples na qual falariamos: não precisa me dar o pacote de novo, ele já me deu (o pacote). Em espanhol é simples: “él ya me lo dio”. Além disso, começamos a ver como é burdo ficar o usando o dele e dela o tempo todo. “No sé su nombre” parece mais simples do que “Não sei o nome dela”. A sensação que a gente tem é que o uso cotidiano do espanhol é mais correto do que o nosso uso cotidiano do português, embora não fiz um estudo comparativo tão profundo para poder afirmar isso com certeza.
A língua de Borges é complicada e seu vocabulário, riquíssimo. Porém, não encontrei uma palavra para dizer “folgado”. Seria uma característica própria do brasileiro? Tal como aqui não conheço um bom equivalmente para a palavra “chanta”. Seria uma característica mais própria dos argentinos? Definitivamente, não! O Brasil está cheio de chantas e a Argentina de folgados.
Aliás, agora que fiz estas perguntas… que falta faz no português os dois signos de interrogação. ¿Quantas vezes a gente começa a ler uma frase enorme para descobrir no final que era uma pergunta?
Outra coisa que chama a atenção é como uma língua usa palavras que na outra é arcaico. Em algum momento da sua história, o castelhano trocou o f de algumas palavras pelo h. Então, hermoso, almohada, heno, huir, entre tantas outras, ficam formoso, almofada, feno, fugir, em português. Para eles, nós somos arcaicos! Para nós, dizer formoso ou o seu equivalmente em espanhol também é.
Penso nisso agora que vou me mudar para a Espanha e terei de aprender ainda outro espanhol, onde as palavras chanta, morocho, pileta, mina não têm muito sentido; onde “coger”, que na Argentina quer dizer foder, se usa com o sentido tão simples como pegar (coger un vaso de água). Novos desafios virão!
Uma das melhores coisas que tive ao voltar para o Brasil, foi voltar a falar português como antes. Talvez um pouco pior, meio misturado, mas fui melhorando sempre e muito. O maior desafio de me mudar novamente será não perder a minha língua e cair no poço do esquecimento e da assimilação total, como fiz na Argentina. John Wilcox me dizia “if you don’t want to lose it, use it”. Este blog servirá justamente para isso: para eu praticar meu português. Se alguém começar a ver alguma coisa estranha, sua crítica será muy bienvenida!

Oi Lu,
Seu blog já começou bem. Está bonito, tem reflexões interessantes e escritas com graça. É bom mesmo que você exercite a língua materna, mas acho que é bom também que nós cá do Brasil apontemos algum eventual erro. Por exemplo, falamos funcionalismo, e não funcionarismo, embora à primeira vista, esta última pareça muito mais lógica, pois dizemos funcionário e não funcionálio, como o cebolinha. E já que falamos dos falares, todos são belos, todos têm peculiaridades e criatividades incríveis! A língua, qualquer que seja ela, é uma criação bem humana, ‘demasiado humana”, e revela um pouco do nosso jeito de ser.
Bem, como esse é um assunto de que gosto muito, vou seguir o gancho do seu comentário sobre usarmos muito os pronomes “dele”, “dela”. De fato, não podemos em português, ao perguntar para um interlocutor o nome de outra pessoa, dizer “qual é o seu nome?”, pois ele vai responder qual é o próprio nome. Isso porque não usamos o “tu” como tratamento, e sim o você, e aí surge a ambigüidade: o “seu nome” pode tanto ser o “seu, com quem eu falo”, como pode ser o “seu (dela), de quem eu falo”. Se usássemos o tu não teria ambigüidade, pois se eu quisesse saber o nome do meu interlocutor eu diria “qual é o teu nome? É pra não confundir que usamos logo o “dela” e pronto, ou damos uma espichadinha nos beiços e uma levantada no queixo e perguntamos ainda mais bem explicadinho: qual é o nome daquela ali?
Bjs pra você
Obrigada pela correção, Mãe! Com certeza deve ter mais coisa assim espalhada por aqui…
Realmente, usar o “tu” poderia ajudar, mas não usamos. Pior ainda, nos lugares onde se usa “tu” no Brasil o mais comum é dizer “tu vai”. Por isso acho que o nosso uso do português cotidiano está tão cheio de erros, e por isso é tão difícil aplicar à fala cotidiana o que estudamos na norma culta. Uma pena!