Lucy Leite

Entre tapas e cañas (1)

In Comida, Espanha, Flâneuse, Imigrante, Viagens on 01/02/2010 at 4:16 pm

Já era hora de eu falar sobre as “tapas”, versão espanhola esplêndida do que chamamos petisco, mas com outro conceito por trás. A tapa e o petisco brasileiro têm duas coisas em comum: são pequenas porções servidas do centro da mesa para acompanhar uma bebida, muitas vezes cerveja, em um bar. Só que além disso, tudo é diferente.

Aqui eles saem para “tapear” enquanto o brasileiro sai para beber. Algumas tapas são tão elaboradas que poderiam, sem dúvida, ser um prato, uma entrada talvez, em um restaurante cool dos Jardins. Há lugares que servem um prato, por exemplo, de arroz, mas você também pode pedir “una tapita”, ou seja, uma porção pequena daquele prato. Quando os espanhóis se sentam à mesa de um bar, eles pedem milhares de tapas ao mesmo tempo. A gente até se assusta… mas depois come tudo! Talvez porque eles bebem as cañas (o copo de cerveja deles), mas muito menos do que os brasileiros. Já passei horas em bar com gente que tomava duas ou três cañas.

Tapas na Cueva del Oso, Murcia

As tapas variam muito de uma região para outra. Em Murcia, há muitas tapas com verduras, tomate, alcaparras, peixes. Mais para o norte, elas são mais pesadas, feitas com embutidos e menos peixes. A Cueva del Oso é um dos meus lugares favoritos aqui em Murcia para tapear e eles servem uns “montaditos” deliciosos. Os montaditos são feitos sempre de pão coberto com alguma coisa. Na foto acima vemos: cambembert com geleia e nozes; atum com tomate e anchova, queijo branco com salmão defumado, foie gras com queijo derretido, jamón com ovos de codorna fritos. Essa é uma tapa para duas pessoas se esbaldarem! Tudo delicioso.

Algumas tapas eu encontrei em todos os lugares onde estive (embora poucos ainda) e sou feliz porque são das minhas preferidas: as “croquetas de jamón” ou a “tortilla”. Vamos às croquetas. Imagine um molho branco espesso, cozido com pedacinhos minúsculos de jamón (presunto cru, ou prosciutto para os da Móoca), que você enrola, passa da farinha de rosca e frita (no azeite de oliva, óbvio). O que você consegue? Um croquete quase sem farinha, que derrete na boca. Eles também fazem esse croquete com bacalhau ou frango. Comi também uma versão de carne de porco com queijo brie. É para enlouquecer. Só que não pense que eles vão trazer uma porção com 12 croquetes. Geralmente uma tapa tem 2 ou 3 no máximo por pessoa. Às vezes, você pede por unidade, e não porque sejam grandes, mas porque se supõe, acho, que você comerá dez coisas mais.

Croquetas de jamón

A segunda tapa que encontrei por todos lados aqui é a “tortilla”. Na Argentina, é prato cotidiano, mas no Brasil ela é praticamente desconhecida. Fazer uma boa tortilla é um mistério e é para poucos. Tecnicamente, ela é uma espécie de omelete de batata frita. Você primeiro frita a batata e depois acrescenta muitos ovos e faz o omelete. Sim, uma bomba calórica, mas não disse que esse post seria de comidas light. O segredo é não deixá-la seca, mas para isso, meu amigo, anos de prática, ou um pouco de sangue espanhol nas veias. Geralmente, nos bares não se pede uma tortilla inteira, mas sim um “pincho de tortilla”, uma porção pequena. Se vier para a Espanha e não comer tortilla, não veio para a Espanha.

Tortilla de patatas

Em Murcia comi algumas das melhores tapas da minha vida. A que mais me surpreendeu foi a “ensalada murciana”. Vejamos, quem no Brasil gostaria de comer uma salada de tomate de lata com atum, azeitonas, cebola e ovo cozinho? Tomate de lata? Urgh… Mas aqui o tomate é tão gostoso que até o de lata você come como se tivesse tirado do pé agora mesmo. Além de tudo, num calor infernal de 40 graus no inverno, nada melhor do que sair às 10 da noite, quando o sol está baixando e pedir uma “ensalada murciana” fresquinha. Dessas eu peço uma só para mim, nada para o centro da mesa! A foto abaixo não é uma “ensalada murciana”, mas é uma das muitas saladas frescas daqui.

Tapa de salada de tomate com atum, alcaparras e boquerón e muito azeite

Outra coisa maravilhosa que descobri aqui em Murcia é a “sobrasada de Mallorca”. Ela é servida como um patê grosso, mas vendida como um embutido. Tem um gosto forte do pimentón (páprica local) e de porco, mas não sei como é feita. Sobre um pão crocante e com queijo branco (sim, como o nosso queijo mineiro) e até com mel, me faz lembrar de longe a força que tem uma sardella no paladar. Delícia para quem gosta de sabores intensos.

Sobrasada de Mallorca, no supermercado

Também há tapas mais refinadas, como a que comemos outro dia no Pan 8. Ali uma tapa pode sair 9 euros ou mais, e um simples croquete de jamón EUR 1,20. Mas para ir de vez em quando, vale à pena, além do lugar sem lindo de dia e de noite. Comemos ali umas alcachofras fritas, servidas com foie gras e caramelo de não sei o quê. Era de enlouquecer.

Alcachofra frita com foie e caramelo

No Brasil, pouco se conhece da cozinha espanhola e, na maioria dos casos, só se chega até a paella. Só que o que os espanhóis comem todos os dias não é paella… nem mesmo as tapas. As tapas são comida de bar, local favorito dos espanhóis (que ganha inclusive da cama para a siesta)! Em outros posts deste blog você encontrará mais sobre a gastronomia espanhola e um dos restaurantes mais gostosos de tapa em Madri! ¡Pues, a disfrutarlo!

Mercados, mercadinhos e mercadões

In Espanha, Flâneuse, Imigrante, Viagens on 31/01/2010 at 10:28 am

A gente é o que come, diz o ditado. Então, nada melhor que saber o que as pessoas comem para saber como elas são, digo eu. Por isso, quando viajo gosto de ir aos mercados locais. Embora eles estejam hoje em decadência, por causa dos grandes hipermercados e cadeias multinacionais, os mercados centrais, bem como as feiras de bairro mostram o tom dos vizinhos, do povo de um lugar. Pensemos nas nossas feiras de rua em São Paulo. Nada mais pitoresco que aqueles gritos dos feirantes “dérreau dérreau”, “freguesa bonita não paga, mas também não leva”!

Quando somos turistas, vamos sempre a restaurantes, mas acho que não há lugar no mundo onde a comida de restaurante seja exatamente igual à de casa. Já viram turista comer peéfe? Pratão de pedreiro, como aqueles que servem na padoca do bairro? Por isso, no mercado a gente vê o que as pessoas compram para comer em casa. Quero compartilhar com vocês algumas fotos de alguns mercados onde estive ultimamente e comentar algumas peculiaridades. Algumas delas serão repetidas de outros comentários sobre viagens que fiz no blog. Quem estiver de visita pela Península Ibérica não perca esse deleite para os olhos e para o estômago.

Mercado de San Miguel num dia tranquilo, Madri

O Mercado de San Miguel em Madri é chique. Não é um mercadão com gente gritando, mas vale a pena para sentir o pulso da cidade. Ele foi reformado recentemente e tem mais um ar de balada que de mercado. Ali as pessoas compram suas “tapitas” e seu vinho e se enfiam em qualquer lugar para desfrutá-los. Ele está sempre lotado e à noite é quase impossível não perder a paciência, mas algumas coisas valem a pena. Sugiro as ostras com champagne! Se é para ser chique, vamos ser chique! Há de vários preços e tamanhos e são sempre frescas e deliciosas. As “tapas” de bacalhau e as de mariscos também são divinas. Além disso, eles também vendem alguns grãos, massas, frutos secos, doces, peixes frescos, flores e pães caseiros.

Champagne no mercadão, Madri

Aqui na Espanha, bem como em Portugal, vi que você pode trombar com um mercado em qualquer lugar. O de Granada estava no meio de um praça muito bonita e caímos ali enquanto procurávamos um cinema, fora do centro turístico. Talvez ele estivesse lá só naquela época, talvez esteja todos os finais de semana, mas achei o máximo. Primeiro, o carrossel ecológico abaixo. Um rapaz ficava no meio girando uma manivela e, em vez de cavalinhos, pneus! Nada mais ecológico que a tração humana.

Carrossel a manivela, Granada

Isso me fez lembrar muito daqueles mercados misturados com atrações de circo, cartomantes e cospe-fogos, como os que já não existem mais. O que se encontra muito nas feiras e mercados locais são frutos secos, nozes, amêndoas, frutas cristalizadas e nesse de Granada não era diferente. Ele se estendia por toda uma praça, com as barracas de comidas, algodão doce, pipoca e as de bolsas da Gucci e Prada. É que os espanhóis são chiques, sabe…

Pimentão seco, Granada

Mas nem só de comida vive o homem, ou o mercado. Em Granada, onde vivem das suas heranças mouras, há vários bazares de bugingangas diretamente trazidas do país vizinho (Marrocos). Ali, os vendedores falam árabe, escutam música árabe e vendem ornamentos árabes. É como ter em um só lugar apenas o lado árabe da 25 de Março! As mercadorias são as mesmas, só que com preços em euro e em ouro! Bom, mas a gente sempre encontra um incensinho, um trequinho que era justo o que a gente estava procurando!

Bugingangas em Granada

No Mercado do Bulhão, na cidade do Porto, me esbaldei! Vendiam de tudo o que se pode imaginar, em dois andares com aquele cheiro gostoso a comida que Portugal tem. Foi a primeira vez que vi aquele elemento que para nós brasileiros é legendário: a cabeça do bacalhau! E também estava seca, mas era vendida separada do corpo. Era uma delícia escutar as senhorinhas dizendo “queres alguma coisinha, ó menina?”, com aquele jeito carinhoso, então eu ia andando com cara de compradora só para elas me dizerem isso. Na minha cabeça, eu respondia: “muito obrigadinha”. Parei para falar com uma delas, porque afinal eu também gosto de prosear. Ela conversou comigo e depois me perguntou: você é da Espanha ou da França? Pensei: nossa, tão ruim assim é meu português?
Vende-se galinhas, Bulhões, Porto

Aqui em Murcia temos uma ótima feira de rua bem perto de casa. O pessoal vai lá passear, bater papo, encontrar os vizinhos e também comprar frutas e verduras recém trazidas da horta, que fica logo ali. Então tudo é fresco e delicioso. Também vendem roupas, plásticos leitosos daqueles antigos para cobrir a mesa e algumas mercadorias de origem duvidosa..

Como aqui as azeitonas são deliciosas, nada a ver com as brasileiras que têm sempre aquele gosto salgado e sem graça, na feira você elas feitas pela abuela. E essas alcaparras gigantes são de perder o juízo (e a forma).

Nos mercados por aqui, bem como nos daí, se vendem flores. Aqui em Murcia, a barraca da florista é interessante. Eu vou lá, pergunto como se cuida, leio as instruções que vêm na planta, mas passam uns dias e a planta morre. Acho que sou eu. Um dia até fiz um “sai-uruca” da área das flores aqui em casa. Definitivamente, não tenho green fingers.  Mas o que vinga aqui mesmo são os cactos, com esse clima tão desértico.

Cactos na feira de Murcia

Quando estivemos na Inglaterra fomos a vários mercados como em Camdem, Portobello e em Oxford, mas não conseguimos encontrar nenhum de comida. Deve haver, lógico, suponho, espero… mas essa dificuldade de encontrá-los também não fala alguma coisa dos ingleses?

Murcia

In Espanha, Flâneuse, Imigrante, Viagens on 25/01/2010 at 12:58 pm

Já era hora de falar de Murcia…. Ou Murrrrfia, como diz uma amiga. Estamos aqui longe de tudo e perto da África. Isso se sente no verão escaldante. Bem, também estamos perto do Mediterrâneo e isso se sente na comida, bem como na calidez das pessoas. Estamos bastante longe da Europa, isso sim. Até eles dizem “en Europa” isso ou aquilo, como se aqui não fosse Europa.

O que há de especial em Murcia? A comida, eu diria, porque é fresca, com saladas muito gostosas. Como é a “huerta de España”, ou seja, a horta nacional, a base das refeições está composta por verduras, além de muito peixe. Mais do que em qualquer lugar onde estive na Espanha, aqui se come bem e barato. Em Madrid, por exemplo, há restaurantes maravilhosos, mas relativamente caros. Em Murcia há dos dois, mas dá para comer tapas bem gostosas por um preço módico.

Alien verduroso no restaurante Pan8

O murciano é a simpatia em pessoa. Porém, dizem que eles saem pouco daqui… Disso eu não sei, mas sei que acham que Murcia capital, com 400.000 habitantes esparramados de forma irregular e pouco clara para mim até agora, é uma cidade relativamente grande. Vamos ser sinceros: pegue qualquer guia da Espanha e procure Murcia. Não está! Definitivamente, não é para turistas. Mas quem se aventurar passar por estas terras, encontrará certamente surpresas agradáveis.

Catedral de Murcia

Se você tiver uns 20 anos de idade, aqui é o seu paraíso! Murcia é baladeira e, como toda região relativamente pobre do mundo, predominam os jovens. Basta andar na rua para ver que todo o mundo tem 20 e poucos anos. De 30 a 40 há poucos… talvez porque foram a outras cidades em busca de trabalho.

O Tontódromo

É necessário ir a Madri uma vez por mês para morar em Murcia, para sentir um pouco de agito, de poluição e de vida. Aqui não acontece muita coisa, não há grandes eventos culturais, o Woody Allen não vem filmar no pedaço, o Javier Bardem mora longe e o cinema é só dublado. Mas isso é comum na Espanha inteira. Só a filmoteca passa filmes legendados, mas isso é só uma vez por semana. Quando cheguei, disseram que a tal filmoteca reabriria após reformas em outubro (2009), até agora nada. A mesma coisa acontece com o tal Teatro Romea. Vim aqui pela primeira vez em março de 2008 e ele já estava em reforma e nesse estado continua. Murcia é vagarosa e tenho a ligeira sensação de que aqui se valoriza mais o ócio do que o trabalho. Uma beleza (?!?!).

Praça do Romea

Murcia quer crescer e se desenvolver, então estão ampliando uma espécie de trenzinho bem bacana, um tranvia, dizem, mas está mais para trem que para bonde. A questão é que eles fecham todo o percurso por onde passará  o trem, não o percurso onde estão trabalhando nas obras e a cidade fica um deus-nos-acuda de trânsito! Sim, meu povo, Murrrrcia tem tránsito!

La Trapería

Aqui também a gente se encontra com conhecidos na rua, como em qualquer cidade do interiorrrrr, principalmente perto do Corte Inglés. A concentração de bares por metro quadrado é enorme. Há poucos cafés, poucos teatros e poucas livrarias. Mas Murcia é ampla, sem prédios muito altos, tudo está perto e a distâncias caminháveis. Tem muita gente que relaciona isso com qualidade de vida. Pode ser… Só que Murcia está para Espanha como o Piauí está para o Brasil, salvas as devidas proporções, lógico. Para um madrileño, o murciano é como um nordestino para um paulista. Alguém vai questionar que no nordeste se vive mais tranquilo que em São Paulo? Também há muito preconceito em ambos os casos e, principalmente, desconhecimento.

Plaza Santo Domingo

Ainda não me acostumei a Murcia, sou sincera. Acho tudo aqui estranho, o que não me acontece com Madri, que é uma cidade para se deliciar. Por isso, só recomendo Murcia para turismo “off-road”, para os aventureiros que gostariam de conhecer a “Espanha profunda”, digamos, ou para os que estão a caminho de outros lugares… Aí vale a pena sentar em um dos restaurantes e comer umas boas tapas murcianas.