Lucy Leite

Preparando uma nova viagem

In Flâneuse on November 8, 2009 at 7:12 pm
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Desenho de Andrea Joseph

Preparar uma viagem é parte emocionante do próprio viajar. As escolhas, a organização, a ansiedade, as descobertas do que a cidade oferece antes de chegar lá vão criando um clima. É preciso marcar um limite entre as reservas feitas e o tempo livre para mudar de ideia, é preciso ler muito para entender um pouco o lugar aonde vamos, a mala tem que ser concisa e exata. Nada pode faltar, nem sobrar.
Primeiro, comprei as passagens a preço de banana, algo fundamental para viajar. Me nego viajar em alta temporada e pagar absurdos em transporte, hotel, enfrentar filas. Isso é o que se chama programa de índio, embora duvido que os índios se divertissem muito num programa desses. Também compro logo um guia da cidade, tipo Lonely Planet, mas que seja pequeno e fácil de carregar. No guia, já vou escolhendo aos poucos quais são os lugares que valem a pena conhecer.
Segundo, o hotel: ultimamente tenho usado o Trip Advisor, que já me tirou de grandes roubadas. Em vez de olharmos aquelas fotomontagens que os hotéis fazem nos sites, ali vemos as fotos que os hóspedes tiraram dos hotéis. Até eu comecei a tirar foto de hotel para colocar lá, porque é utilidade pública.
Terceiro: que peças de teatro estão passando no momento? Assim, compro as entradas com antecedência. Ir ao teatro em outra cidade ou outro país diz muito da cultura local, você encontra as pessoas reais, vê como se comportam em público. Lógico que não estou falando de ir aos musicais cheios de turistas. Aliás, odeio esses musicais. A questão é que quando não estamos com alguma pessoa local, o trajeto termina sempre sendo algo manjado pelos turistas e o teatro é uma possibilidade de conhecer outro lado da cidade. Desta vez, vamos comprar entradas de cinema antecipadas, assim vemos The Christmas Carol, do Zemeckis, em 3D no Imax, embora o cinema pode ser deixado para arrebatos súbitos. Mas já vou sabendo tudo o que está passando na cidade. Também vejo quais as exposições de arte que estarão na cidade, os horários de funcionamento, se tem algum show bom acontecendo, enfim, tudo o que não se consegue fazer de última hora.
Adicionei um novo passo a tudo o que eu fazia antes: baixar os aplicativos do iPhone que facilitam a vida em outro lugar. Baixei mapa do metrô que indica o trajeto mais curto de um ponto a outro e também um audio guide que, mesmo eu já conhecendo os lugares, dá uma nova inspiração para revisitar e curtir ainda mais. Além disso, o GPS dele é ótimo e realmente ajuda… mas não substituo aquele mapa desengonçado que rasga no meio e nunca dobra direito. No final da viagem, o meu mapa está todo rabiscado.
Algo importante é encontrar os restaurantes que valem a pena conhecer, dentro do preço que eu quero pagar. Conhecer a gastronomia local é também conhecer a cultura. Nesse aspecto acho muito difícil sair do circuito turístico, porque quem é de fora nunca sabe realmente qual o melhor lugar BBB, bom, bonito e barato. O turista sempre termina pagando caro para comer mal, principalmente se não está bem informado. Tento me informar o melhor possível, mas já sabendo que, como não poderei planejar antes todas as refeições, pagarei um mico como qualquer turista… e incluo isso no orçamento da viagem.
Desta vez, quero fazer uma necessaire profissional, porque sempre peco nisso. Quero comprar sachês de shampoo ou alguma embalagem pequena, uma pasta de dente pequena, tudo pequeno… Viajar com mala grande para mim é inconcebível! O bom de viajar no inverno, e que compensa o enorme volume das roupas pesadas, é que basta trocar as blusas de baixo, porque o casaco será sempre o mesmo. Uma pena para as fotos, mas não viajo para fazer books.
Tudo isso porque para mim viajar é sempre uma aventura, porque a preparação só serve para saber bem aonde vamos, mas chegando lá são as surpresas as que sempre emocionam mais: conhecer pessoas, encontrar lugares inesperados que não aparecem nunca nos cartões postais, alargar o meu campo de visão do mundo, da história e de mim mesma. Por isso gosto de voltar aos lugares aonde já fui e não gosto de ficar menos de 5 dias em um lugar, senão é impossível captar o gosto e o tom de vida das pessoas locais, que são as que fazem os lugares.

Gastronomia espanhola

In Espanha on November 4, 2009 at 9:34 am

A comida espanhola é mundialmente famosa pelos seus sabores, variedade e contundência. Mais importante ainda, ela vai muito além da paella. Aliás, pasmem, na maioria das vezes aqui a paella é feita com um colorante alaranjado. Outra: eles identificam rapidamente um turista quando veem alguém comendo paella à noite. Aqui arroz só se come no almoço. Outra: o “almuerzo” aqui é um lanchicho que eles tomam lá para as 11 ou 12 da manhã, porque “la comida” mesmo é depois da 1:30 da tarde.

Como acontece no Brasil também, cada região tem seus pratos típicos. Murcia, ao lado do Mediterrâneo, e considerada a horta da Espanha, tem verduras fresquíssimas o ano inteiro, tem até tomate em lata que dá para comer de colher de tão saboroso. Abaixo segue um breve “ensaio fotográfico” com algumas comidas gostosas e algumas estranhesas daqui.

O café-da-manhã em Murcia: trata-se de uma torrada de pão fresco (aqui quase não comem pão de forma; no Brasil, aliás, deve ter o triplo da quantidade de marcas), coberta com tomate recém triturado, azeite de oliva e sal para quem quiser (eu prefiro sem sal). Qual é o barato desde café? O tomate aqui é tão saboroso, que é mais gostoso que qualquer geleia.

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Café da manhã

No supermercado, como já podíamos esperar, tem uma parte só de presunto cru, ou jamón. E não é jamón crudo, é jamón. O presunto brasileiro aqui é jamón de york, totalmente de segunda classe, e é lógico que seja assim. Essa iguaria ibérica, também presente na Itália com o nome de prosciutto (mais popular entre os brasileiros, principalmente os da Moóca), é uma perna de porco curada no sal por mais de 12 meses. Depois, não se coloca na máquina para fatiar, se corta na faca e as lâminas de jamón têm de ficar transparentes. O cheiro salgado dessa seção do supermercado faz a gente enlouquecer.

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Vamos às coisas estranhas. Aqui tem muitas! E eles me garantem que são maravilhas da culinária local. Eu já como de (quase) tudo, então permito-me não provar dessas supostas iguarias. Porém, confesso que adorei comer bochecha de porco ao vinho!

Pois bem, eles comem sangue! Não sei o que aquele famoso Conde fazia no leste europeu… E pior, é sangue meio coalhado, parece uma gelatina ou uma esponja… e é feito com piñole, que não torna nada mais agradável. E isso você como no bar, senta, pede uma cerveja e um pedaço de sangue. Eles também comem cérebro fritinho, parece um queijinho empanado… Meleca pura!

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Sangue

Eles também comem fucinho de porco ou de vaca, chamado “morro”. Nem imagino que gosto tem… se parecer a bochecha, deve ser bom, mas ainda não tive coragem.

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Morros

Voltando às delícias, nas épocas de festas em Murcia (felizmente, são várias épocas, porque Murcia está para a Espanha como Salvador está para o Brasil), eles comem o paparajote, que é nada mais nada menos que uma folha do limoeiro empanada em água, farinha, açúcar e canela e frita. Você come a casquinha que fica com aquele gostinho ao fundo do limão. Sai 1 euro a folha, acho um absurdo de caro, mas pelo menos dá para a gente se controlar, senão eu comeria o limoeiro inteiro frito.

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Paparajotes

Outra maravilha daqui é o salmorejo, uma espécie de gazpacho, ou sopa fria de tomate, só que mais encorpado, e com pedacinhos de jamón. Esse prato está principalmente na região de Salamanca, mais ao norte.

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Salmorejo

Depois virá um post só com as tapas, que são um mundo à parte aqui…

É isso aí, Maicon

In Cinema on October 30, 2009 at 9:51 am

Fui assistir ao filme This is it, sobre os ensaios do que teria sido um grande show de regresso aos palcos do Michael Jackson, mais conhecido entre nós brasileiros como o Maicon! Devo começar dizendo que nunca gostei dele. Depois que ele ficou branco, menos ainda. Mas o cara era o cara e nós, de 30 anos MAIS ou menos, mesmo sem ter sido fãs, nos surpreendemos ao conhecer todas as canções do cara, incluindo letras e localizações específicas dos “uuuuhhh”. Dito isso, passo ao principal desgosto com o filme: as cadeiras do cinema. O filme começa e você quer dançar e tem que ficar lá como um pazzo sentado. Como não tinha quase ninguém na sessão e pude pelo menos chacoalhar um pouco e mexer as mãos de um lado para o outro no Thriller. À medida que o filme vai avançando você começa agradecer as cadeiras, porque aquela fase de Eco-Maicon era de doer e você vai lembrando por que nunca gostou do cara.

Eu pensei que o filme pudesse ser meio melodramático e tal, mas nada disso. É um retrato bastante íntimo do profissionalismo do “rei do pop” (OMG, eu disse isso) e da qualidade do pop que ele fazia. Os personagens mais interessantes do filme eram os bailarinos, que são aos poucos abandonados mais para o final e substituídos por imagens da floresta Amazônica que o Maicon amava, mas só fez tirar um macaco de lá e levar para a casa dele. Fiquei depois morrendo de pena dos bailarinos, porque muitos se apresentariam com o MJ pela primeira vez… e o cara vai e morre. Espero que eles tenham conseguido um novo emprego.

Quanto ao filme, não é muito bom, por conta do material dispar, ou seja, tem seus altos (que são excelentes) e baixos. Mas os super fãs vão adorar mesmo. Gostei de ver a parte da realização dos filmes feitos para o show, gostei do entusiasmo do começo e que o filme começasse com Wanna be starting something. Além disso, Thriller e Smooth Criminal continuam ótimas. O cara era mesmo um freak, mas era um gênio. Quem quiser ver, corra, porque dura poucos dias no cinema.