Já era hora de eu falar sobre as “tapas”, versão espanhola esplêndida do que chamamos petisco, mas com outro conceito por trás. A tapa e o petisco brasileiro têm duas coisas em comum: são pequenas porções servidas do centro da mesa para acompanhar uma bebida, muitas vezes cerveja, em um bar. Só que além disso, tudo é diferente.
Aqui eles saem para “tapear” enquanto o brasileiro sai para beber. Algumas tapas são tão elaboradas que poderiam, sem dúvida, ser um prato, uma entrada talvez, em um restaurante cool dos Jardins. Há lugares que servem um prato, por exemplo, de arroz, mas você também pode pedir “una tapita”, ou seja, uma porção pequena daquele prato. Quando os espanhóis se sentam à mesa de um bar, eles pedem milhares de tapas ao mesmo tempo. A gente até se assusta… mas depois come tudo! Talvez porque eles bebem as cañas (o copo de cerveja deles), mas muito menos do que os brasileiros. Já passei horas em bar com gente que tomava duas ou três cañas.
As tapas variam muito de uma região para outra. Em Murcia, há muitas tapas com verduras, tomate, alcaparras, peixes. Mais para o norte, elas são mais pesadas, feitas com embutidos e menos peixes. A Cueva del Oso é um dos meus lugares favoritos aqui em Murcia para tapear e eles servem uns “montaditos” deliciosos. Os montaditos são feitos sempre de pão coberto com alguma coisa. Na foto acima vemos: cambembert com geleia e nozes; atum com tomate e anchova, queijo branco com salmão defumado, foie gras com queijo derretido, jamón com ovos de codorna fritos. Essa é uma tapa para duas pessoas se esbaldarem! Tudo delicioso.
Algumas tapas eu encontrei em todos os lugares onde estive (embora poucos ainda) e sou feliz porque são das minhas preferidas: as “croquetas de jamón” ou a “tortilla”. Vamos às croquetas. Imagine um molho branco espesso, cozido com pedacinhos minúsculos de jamón (presunto cru, ou prosciutto para os da Móoca), que você enrola, passa da farinha de rosca e frita (no azeite de oliva, óbvio). O que você consegue? Um croquete quase sem farinha, que derrete na boca. Eles também fazem esse croquete com bacalhau ou frango. Comi também uma versão de carne de porco com queijo brie. É para enlouquecer. Só que não pense que eles vão trazer uma porção com 12 croquetes. Geralmente uma tapa tem 2 ou 3 no máximo por pessoa. Às vezes, você pede por unidade, e não porque sejam grandes, mas porque se supõe, acho, que você comerá dez coisas mais.
A segunda tapa que encontrei por todos lados aqui é a “tortilla”. Na Argentina, é prato cotidiano, mas no Brasil ela é praticamente desconhecida. Fazer uma boa tortilla é um mistério e é para poucos. Tecnicamente, ela é uma espécie de omelete de batata frita. Você primeiro frita a batata e depois acrescenta muitos ovos e faz o omelete. Sim, uma bomba calórica, mas não disse que esse post seria de comidas light. O segredo é não deixá-la seca, mas para isso, meu amigo, anos de prática, ou um pouco de sangue espanhol nas veias. Geralmente, nos bares não se pede uma tortilla inteira, mas sim um “pincho de tortilla”, uma porção pequena. Se vier para a Espanha e não comer tortilla, não veio para a Espanha.
Em Murcia comi algumas das melhores tapas da minha vida. A que mais me surpreendeu foi a “ensalada murciana”. Vejamos, quem no Brasil gostaria de comer uma salada de tomate de lata com atum, azeitonas, cebola e ovo cozinho? Tomate de lata? Urgh… Mas aqui o tomate é tão gostoso que até o de lata você come como se tivesse tirado do pé agora mesmo. Além de tudo, num calor infernal de 40 graus no inverno, nada melhor do que sair às 10 da noite, quando o sol está baixando e pedir uma “ensalada murciana” fresquinha. Dessas eu peço uma só para mim, nada para o centro da mesa! A foto abaixo não é uma “ensalada murciana”, mas é uma das muitas saladas frescas daqui.
Outra coisa maravilhosa que descobri aqui em Murcia é a “sobrasada de Mallorca”. Ela é servida como um patê grosso, mas vendida como um embutido. Tem um gosto forte do pimentón (páprica local) e de porco, mas não sei como é feita. Sobre um pão crocante e com queijo branco (sim, como o nosso queijo mineiro) e até com mel, me faz lembrar de longe a força que tem uma sardella no paladar. Delícia para quem gosta de sabores intensos.
Também há tapas mais refinadas, como a que comemos outro dia no Pan 8. Ali uma tapa pode sair 9 euros ou mais, e um simples croquete de jamón EUR 1,20. Mas para ir de vez em quando, vale à pena, além do lugar sem lindo de dia e de noite. Comemos ali umas alcachofras fritas, servidas com foie gras e caramelo de não sei o quê. Era de enlouquecer.
No Brasil, pouco se conhece da cozinha espanhola e, na maioria dos casos, só se chega até a paella. Só que o que os espanhóis comem todos os dias não é paella… nem mesmo as tapas. As tapas são comida de bar, local favorito dos espanhóis (que ganha inclusive da cama para a siesta)! Em outros posts deste blog você encontrará mais sobre a gastronomia espanhola e um dos restaurantes mais gostosos de tapa em Madri! ¡Pues, a disfrutarlo!























